domingo, 30 de setembro de 2007

RECEITA DO DIA: EU!!!

Ingredientes:
  • 151 dias num país diferente, com uma cultura diferente, com uma língua diferente, com relacionamentos interpessoais diferentes... (e por aí vai)
  • 60h semanais de trabalho duro, mas gratificante, por me proporcionar, futuramente, o diferencial no mercado de trabalho.
  • Imensuráveis horas de pensamentos na família, nos amigos, nas coisas boas da minha rotina no Brasil. (nesse caso eu minto, pois basta excluir as horas diárias em que eu durmo pra se ter o valor exato das horas em que penso sobre esses assuntos: 24h por dia menos 8h de sono, sobram 16h por dia, vezes 151 dias, já são 2416h).
  • 15 kilos a menos pra carregar pra todo lado. O ponto negativo disso foi um déficit na minha balança (não podia perder o trocadilho, né!!!) financeira pois tive que comprar roupas novas.
  • 8 comprimidos de Neosaldina para acabar com a dor de cabeça no primeiro mês em que fiquei sem internet e tentava, a todo custo, resolver o problema (daí a explicação de minha ausência nas postagens em grande parte desse perído sem “posts”).
  • Apenas 1 prato de sobremesa e 1 prato de refeição quebrados na cozinha, em 5 meses de trabalho; o primeiro em horário normal de trabalho e o último durante o fim de semana passado, quando fizemos um jantar japonês, eu, Mariana, Mathieu – estagiário francês, Ervin – estagiário holandês, Yoshiko – garçonete japonesa, e Kasuma – o novo estagiário japonês (assunto que será postado posteriormente).
  • Por volta de 10 vezes já preparei o almoço de toda a equipe que trabalha no restaurante e no hotel, com destaque para o “meu arroz”, soltinho (faço um agradecimento aqui, em público, à minha avó Aparecida, à minha mãe Rogéria, à minha tia Glaucia e à minha irmã Emmanuelle, por me ensinarem como se faz um verdadeiro arroz “soltinho”). É isso mesmo, vivendo e aprendendo!!! Até a pouco tempo atrás, meu arroz era um desastre. Apesar de aqui o pessoal curtir mais o arroz tipo “japonês”, grudento e úmido (e aí faço uma homenagem ao meu pai, José Lúcio, que adora o arroz feito assim), quando fiz arroz não sobrou nem pra contar estórias...
  • 42 máquinas de roupas lavadas e 105 uniformes devidamente bem passados (uma boa dica pras solteiras de plantão, hein!!!).
  • Um punhado de Javalis vistos pelas estradas próximas (qualquer dia eu mato um deles e faço um churrasco pra galera. Ahh, se faço!!!).
  • Aproximadamente 302 cafés espressos simples (é com “s” mesmo, que significa “sob pressão”) e uns 100 duplos, pra “segurar a onda” de ter que acordar às 5:30h da manhã e trabalhar até 4 da tarde...
  • Uns 5 kilos de chocolates, frutas e sobremesas roubadas da cozinha pra Mariana. Isso foi diminuindo gradativamente a partir do momento em que Mariana achou que estava engordando. Coisas de mulher mesmo, pois continua maravilhosamente magra (colocarei fotos dela posteriormente).
  • 3 vezes mais vocabulário cotidiano. 5 vezes mais vocabulário técnico gastronômico. 17.486 vezes mais desenvoltura, afinidade e liberdade com toda a equipe de trabalho do restaurante (esse último dado também me causa certos problemas pois aqui é um tal de “passar a mão na bunda” um do outro que, quando as duas principais pessoas que fazem isso com mais frequência vão chegando perto, todo mundo em volta já fica de sobreaviso, pra não “tomar uma por trás”... hehehe... no último dia de trabalho vou tentar passar a mão na bunda do Chef Klein!!! HAUHAUAHUHAUAHUAHA...)
  • Alguns Euros “bem gastos” na minha viagem de 10 dias por Paris (será criado um “post” à parte para narrar essa minha aventura).

Modo de Preparo:

  • Misture tudo isso descrito acima.
  • Acrescente 122 dias que ainda me faltam pra completar essa “epopéia francesa”.
  • Despeje tudo em uma mala grande (máximo 32 kilos pois senão pagarei sobrepeso no chek-in do aeroporto).
  • Despache para o Brasil dia 30 de Janeiro de 2008, se possível, entre 35 e 40 graus de temperatura porque aqui já começou a esfriar e deve nevar em Dezembro.

Esse prato serve qualquer quantidade de pessoas que ainda insistem em acompanhar meus relatos, meus devaneios, minhas aventuras e minhas esperanças.

Pode ser servido a qualquer hora do dia, até o fim de Janeiro.


Bon Appétit bien sur!!!!!!!!!!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Setembro, 30...


Para que todos vocês saibam a verdade, não falarei mais que o necessário.


Em breve, tão breve, como esse momento que já passou...

terça-feira, 26 de junho de 2007

A Transitoriedade do Permanente

Parece que quando começamos a nos acostumar com as adversidades, vem alguma força maior e nos diz: Não!!! Você já superou essa fase e aqui não existe mais nada que possa te desafiar. Foi assim que me senti, quando recebi a notícia que não mais trabalharia na Pâtisserie (que pena, hein Pierre!!!!!! Quero ver agora quem vai lavar o chão todo fim de expediente!!!)... Uma mescla de trabalho cumprido e tristeza por não mais voltar a trabalhar com aquelas pessoas.

O bom disso tudo é que coloquei na cabeça que cada dia vivenciado aqui na França será único e que devo aproveitá-lo como se fosse o último da minha jornada... (assumo que isso é um pouco difícil de aceitar e cumprir mas, com algum esforço e bastante concentração no trabalho, dá pra alimentar essa utopia momentânea...)

O que importa agora é a consciência da experiência absorvida de dois meses dentro da Pâtisserie e a certeza de que o novo desafio que virá deverá ser igualmente aproveitado. E não poderia estar melhor colocado dentro do restaurante: La Poissonnerie...

Poisson³

La Poissonnerie: Local onde são trabalhados os peixes, frutos do mar e todos os insumos relativos à essa vertente culinária. Aqui também somos responsáveis pelo mise-en-place do Garde Manger e da Cuisine Chaude. Alguns exemplos são os pré-preparos das aves, rãs, molhos à base de peixes e frutos do mar, além de toda a alimentação semanal dos funcionários do restaurante.

Só para ratificar minha felicidade no novo local de trabalho: antes, na Pâtisserie, trabalhava de Quinta à Segunda, das 9:30h da manhã até às 4:00h da tarde e de 6:30h da noite até meia-noite. Total: 60h de trabalho por semana. A folga acontecia às Terças e Quartas-feiras. Já na Poissonnerie, trabalho Quarta-feira, de 1:00h da tarde até 7:00h da noite (o restaurante está fechado nesse dia e só ficam na cozinha trabalhando eu, Cedric, que é o Chef da Poissonnerie e Thomas, um jovem estagiário) e de Quinta à Domingo, de 6:00h da manhã às 4:00h da tarde. Total: 46h de trabalho por semana. As folgas acontecem às Segundas e Terças-feiras.

Após esse preâmbulo que ilustra bem um típico trabalhador brasileiro, sempre querendo levar vantagem em tudo, posso afirmar que meu primeiro dia de trabalho na Poissonnerie foi digno de um relato detalhado.

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007. Jamais esquecerei esta data. Começamos nosso trabalho exatamente às 13:00h (francês gosta de pontualidade, além de estar sempre tentando ser mais rápido que o próprio tempo). Descemos à câmara fria de estocagem da Peixaria, fizemos o check-list semanal e subimos com os insumos que iríamos trabalhar. Montamos a praça de trabalho e Cedric me falou: Lúcio, comece com os Pigeon (pombo). Pensei comigo: “É moleza. Corta-se a cabeça, depois os pés e, por último, separam-se as coxas do resto do corpo”.

Apêndice matemático como complementação de minha argumentação, baseada no desespero momentâneo – Foi quando me virei para trás e me deparei com 14 caixas de papelão, com 10 pombos em cada uma delas... Cedric disse: “Você tem uma hora pra fazer isso”. Fazendo um cálculo rápido, são 2,333 pombos a cada minuto, ou 7 pombos a cada 3 minutos (como queiram os que defendem a questão de não tratarmos as aves como dízimas periódicas...). Foi aí que eu tive vontade de subir pro meu quarto, arrumar as malas e voltar pro Brasil!!!!!!!!! Puta merda, limpar 140 pombos em uma hora!!!!!!!!!! Esse cara tá louco!!!!!!! Durante uns 20 segundos de infinitos cálculos matemáticos que acabaram não me levando a nada, já me vi abrindo a primeira caixa, jogando o pobre do pombo sobre a prancha e deslizando a primeira facada sobre seu pescoço. Tive a sorte, nesse momento, de olhar para o grande relógio instalado na parede da cozinha e presenciar a hora exata do início da minha própria Inquisição Columbina. “Você, pombo, não foi fiel à meus preceitos religiosos matemáticos e, por isso, merece ser decapitado o mais rápido possível, mais precisamente em 25,714 segundos”. A cada cabeça, par de pés e coxas retiradas, meu computador neural processava as informações necessárias para agilizar esse processo. Sabe-se que uma pessoa cozinhando durante uma hora gasta, em média, 220 Kcal. Na primeira meia hora de trabalho eu, seguramente, já tinha gasto umas 500 Kcal, tal pelo esforço físico como pelo mental... A primeira hora se passou e eu já havia feito por volta de 80% do serviço... Cedric apenas olhou a situação e continuou fazendo seu trabalho. Eu, agora desafiado pelo rompimento da barreira que me foi imposta e imprimindo um ritmo de uma progressão aritmética, finalizei tudo em 1h e 07min.

Apesar de não ter obtido êxito na tarefa que me foi passada, senti-me realizado por tê-la feito quase no tempo (afinal de contas, o que são 07min a mais!!!). Cedric, calmamente, disse-me: “Lúcio, essa é sua primeira semana de trabalho; isso é normal. Na próxima, com certeza, sei que você será mais ágil nas tarefas. Quarta-feira que vem você conseguirá fazer em 50 MINUTOS... Eu, fatigado e com as mãos sujas de sangue, tive vontade de rir nesse momento!!! Apenas tive vontade porque o dia seguiu no mesmo ritmo frenético da primeira hora de trabalho e eu consegui sair vivo dele, afinal de contas não sou e nunca serei um pigeon de 25,714 segundos; dá próxima vez, terei que sê-lo de 21,428 segundos...

A semana passou numa velocidade compatível com o frenetismo francês. As ressalvas a serem comentadas, en passant, são as técnicas de cozimento, limpeza e cortes do Homard (lagosta especial da costa Bretã e considerada um dos frutos do mar mais saborosos) e também as técnicas de trabalho com trufas negras. Como não tive oportunidade de fotografar tudo isso, o assunto será detalhado na postagem da próxima semana...
A lição que tiro dessa semana e que repasso a todos vocês que me lêem é que: “enquanto o esforço é reconhecido, tenha certeza que o que faz é correto e no tempo exato”, afinal de contas, Ad impossibilia nemo tenetur ou, em bom português, ninguém é obrigado a fazer o impossível...

Receitas 03

021 - GLACE AMANDE

8L lait
1,2L crème
600g sucre semoule
12 jaunes d’oeufs
600g pâte d’amande
270g trimoline
300g poudre de lait
30 gouttes d’amande amère


022 - GLACE BASILIC

1,2Kg sucre semoule
350g basilic efeuillé
300g poudre de lait
500g glucose atomisé
400g jaunes d’oeufs
50g crémodent
300g beurre
6L lait
1L crème

Mixer le sucre et basilic au pacojet pour garder la couleur
Bouillir lait, crème, beurre, crèmodent, poudre de lait
Ajouter le mélange sucre basilic
Débarrasser et ajouter les jaunes d’oeufs
Bloquer, turbiner


023 - GLACE ORANGE

1L jus d’orange
50cL crème
12 jaunes d’oeufs
150g sucre semoule


024 - GLAÇE POTIRON

2,5Kg purée de potiron
1,25Kg creme fluide
2L lait
1,5Kg sucre
60 jaunes d’oeufs (1Kg)
10 gousses de vanille

Confectioner une crème anglaise at ajouter la purée à la fin


025 - GLACE SÉSAME NOISETTE

50cL lait
5cL crème
25g poudre lait
25g glucose
125g sucre semoule
30g beurre
50g pralin
70g pralin maison
10g sesame blanc
50g huile de sésame


026 - GLACE VANILLE

1L crème
1L lait
360g jaunes d’oeufs
3 gousses vanilla tahité
400g sucre semoule

Effectuer une crème anglaise
Laisser maturer un jour
Passer, bloquer, turbiner


027 - GRAINE DE COURGE OU TOURNESOL

300g de sucre
PM eau
1Kg graine

Faire un sirop avec le sucre e l’eau
Ajouter les graines, bien faire sécher et gonfler puis caramelize toujours en remuant
Débrasser sur papier sulfurisé et saler aussi tôt
Débarasser en boît hermétique


028 - GUIMAUVE

1)
100g glucose
300g eau
1Kg sucre semoule
500g blancs d’oeufs

2)
10 gouttes fleur d’oranger
2 pipettes colorant jaune oeuf

Cuire 1 à 130C
Batter les blancs d’oeufs à 115C
Verser le sirop sur les blancs
Ajouter la gélatine fondu dans la casserole du sirop, la fleur d’oranges et le colorant, une fois tiède, dresser à la poche et saupoudrer de codinège
Se conserve ¾ jour en boite hermétique


029 - HUILE DE VANILLE

1L huile d’olive
3 gousses vanille


030 - JUS À LA VANILLE

2 gousses de vanilla
80g sucre semoule
10g fécule pomme de terre
40cL eau

Cocotter les gousses
Mélanger fécule + sucre
Ajouter l’eau et bouillir
Ajouter les gousses et bouillir à nouveau 2min
Passer